quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A história de Geraldo, revelação do Fla nos anos 70 que morreu aos 22 anos

Praticante do futebol moleque: habilidoso, driblador, alegre e com um controle sensacional, o jogador chegou a disputar a Copa América de 1975 pela Seleção Brasileira e vivia um momento ímpar na sua carreira entre fins de 1975 e início de 1976. Fez sete jogos pela Seleção Brasileira.

O assoviador de Barão de Cocais.

Dona Nilza Alves, hoje com 88 anos, teve nove filhos na pequena cidade de Barão de Cocais, distante cerca de 100km da capital Belo Horizonte. Dos nove, cinco tornaram-se jogadores de futebol. Dos cinco, Geraldo era o mais habilidoso, reconhece a própria mãe. E o menino deixou Minas Gerais em direção ao Rio de Janeiro com a ajuda do irmão mais velho. Washington era zagueiro do Flamengo e apresentou o irmão à equipe da Gávea no início da década de 70. Geraldo faria parte da "geração de ouro" rubro-negra, comandada por Zico, maior ídolo da história rubro-negra.

Em campo, não demorou muito para Geraldo conquistar os companheiros e a torcida. Campeão carioca em 1974 e convocado para a Seleção em 1976, era uma das promessas do país para a Copa do Mundo de 1978. Ficou marcado pela elegância como jogava, com a cabeça em pé. Mas ficou mesmo identificado pelo apelido curioso: "Geraldo Assoviador".

- Ele vivia assoviando, não só no campo, mas o dia inteiro. Assoviava músicas que gostava, principalmente "Your song" (do cantor Elton John, interpretada por Billy Paul) - lembrou Zico.

Anos 70: cabelos black power, música disco...

Se a década de 70 ficou marcada pelas roupas extravagantes, cabelos black power e discotecas, jogadores de futebol talentosos e contestadores marcavam posição. Ofensivo, irreverente, polêmico e indisciplinado. Essas são algumas das características que definiram Geraldo dentro e fora das quatro linhas. Paulo César Caju e Afonsinho faziam parte do elenco rubro-negro na época e fizeram amizade com o mineiro, que também conheceu um vizinho cantor, ainda desconhecido: Raimundo Fagner.

- O Geraldo era muito alegre, cheio de vida. Ele era reserva do Afonso, que era nosso paizão no prédio. Um dia o Geraldo barrou o Afonso e virou titular no Flamengo. Aí o Baianinho, que morava com o Afonso e jogou no Vasco, chegou no nosso apartamento e disse que o Geraldo estava chorando e queria parar de jogar porque barrou o amigo. Fomos todos para lá e injetamos ânimo nele. Isso é para você ver o caráter dele - recordou Fagner

Cirurgia simples que terminou em morte
Em 1976, o departamento médico do Flamengo indicou que Geraldo precisava operar as amígdalas por conta de uma inflamação crônica na garganta, considerada comum naquele tempo. A mãe do jogador revela que ele não estava disposto a fazer a cirurgia:

- Quinze dias antes, o Geraldo falou comigo: 'Ô, mãe. Eles querem que eu opere, mas eu não vou operar. Tenho muito medo' - revelou dona Nilza.

No dia 25 de agosto, o meia foi internado na clínica Rio Cor, em Ipanema, mas a cirurgia não foi realizada. Segundo o jornal "O Globo", Hélio Maurício, presidente do Flamengo na época e médico da clínica, não divulgou nenhum comunicado sobre a operação. No dia seguinte, Geraldo foi internado às 7h para ser operado pelo médico otorrinolaringologista Wilson Junqueira, que aplicou a anestesia local.

Vinte minutos após a cirurgia, Geraldo começou a se sentir mal e seu coração parou. A equipe médica tentou reanimá-lo, mas às10h30m Geraldo morreu vítima de um choque anafilático causado pela anestesia. Ele tinha apenas 22 anos.

FRAME Geraldo jogador do Flamengo (Foto: Reprodução / TV Globo)Manchete de jornal com a notícia da morte de
Geraldo

- Parei o carro na porta da minha casa e minha mulher estava desesperada. Eu sem saber de nada e minha mulher disse: 'Estão falando que o Geraldo morreu.' E aconteceu. Como dizem, em mil aconteceu com um e infelizmente foi conosco - contou Lincoln, irmão de Geraldo.

Com a morte do jogador, a suspeita de erro médico foi levantada. O Conselho Regional de Medicina (Cremerj) abriu uma sindicância interna para investigar o caso. Os médicos Wilson Junqueira, hoje já falecido, e Célio Cotecchia (do Flamengo) foram absolvidos. Procurado pela reportagem do "Esporte Espetacular", o Cremerj informou não possuir mais os registros da sindicância.

Emoção e homenagens

 
O velório do jogador foi realizado na sede do Flamengo e mobilizou jogadores, amigos e familiares. Craque do rival Fluminense e integrante da "Máquina Tricolor" da década de 70, Carlos Alberto Pintinho era o melhor amigo de Geraldo fora de campo. Depois de 35 anos, Pintinho revelou que a perda do amigo o fez deixar o Brasil:

- O relacionamento que nós tínhamos era muito forte. Então, com a perda dele, eu quis ir embora - disse o ex-jogador, antes de interromper a entrevista emocionado. Hoje, Pintinho mora na Espanha. 

Em homenagem ao jogador, um amistoso foi organizado no Maracanã: Flamengo contra a Seleção Brasileira. De um lado, Zico. Do outro, Pelé e Rivelino. Na tribuna de honra, o presidente Ernesto Geisel. O Rubro-Negro venceu a partida por 2 a 0, e a renda foi doada à família de Geraldo.

Trinta e cinco anos mais tarde, os amigos Paulo César Caju, Afonsinho, Zico, Pintinho e Fagner, a mãe dona Nilza e o irmão Lincoln ainda se emocionam ao lembrar do menino assoviador.

Curiosidades

  • O apelido de Geraldo Assoviador foi dado em virtude da excêntrica mania que o jogador tinha de assoviar dentro de campo enquanto realizava jogadas inusitadas.
  • O atleta, em seu auge, foi por diversas vezes comparado por cronistas esportivos da época com o rei do futebol: Pelé.
  • A amizade de Geraldo com Zico era tão forte que, além de freqüentar constantemente a casa da família Antunes, em Quintino, ele era considerado um filho postiço de Seu Antunes e Dona Matilde. “É meu filho marronzinho”, costumava dizer o patriarca da família.
  • Não era para Geraldo ter feito a cirurgia no dia 26 de agosto. Na verdade, o jogador, que tinha muito medo de ser operado, deveria ter retirado as amídalas no mesmo dia em que Zico corrigiu um desvio de septo. Mas Geraldo não apareceu no dia e apenas Zico fez a cirurgia na data prevista.
  • Zico participou de dois amistosos em memória a Geraldo. O primeiro, no dia 6 de outubro (Flamengo 2 x 0 Seleção Brasileira), serviu para arrecadar fundos para a família do jogador, que vivia em Barão de Cocais. A segunda, em 1995, foi entre os másteres do Flamengo e de Minas Gerais, em Barão de Cocais (o Flamengo perdeu por 2 x 1 e Zico fez o gol), para possibilitar a construção do mausoléu para Geraldo.

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